Anomalias atingem 60% dos peixes analisados no Norte do ES e podem ter relação com desastre do Rio Doce
Cangoás foram coletados na foz do Rio São Mateus, entre São Mateus e Conceição da Barra; pesquisadores apontam possível relação com os rejeitos do desastre do Rio Doce

Um estudo publicado na revista científica Ocean and Coastal Research identificou uma elevada incidência de anomalias nos otólitos de peixes coletados na foz do Rio São Mateus, entre os municípios de São Mateus e Conceição da Barra, no Norte do Espírito Santo.
Os otólitos são pequenas estruturas localizadas no ouvido interno dos peixes, relacionadas ao equilíbrio e à percepção dos movimentos. Dos 38 exemplares de cangoá (Stellifer naso) examinados pelos pesquisadores, 23 apresentaram alterações, correspondendo a 60,5% da amostra.
Segundo o estudo, esse é o maior percentual de anomalias em otólitos já registrado em peixes costeiros no Brasil. Os animais utilizados na pesquisa foram coletados em maio de 2022.
A forma e a composição química dos otólitos podem ser influenciadas pelas condições ambientais e pelo estado fisiológico dos peixes. Por isso, alterações nessas estruturas podem funcionar como indicadores de estresse ou de mudanças ocorridas no ambiente onde as espécies vivem.
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Alterações apresentaram diferentes formatos
Os pesquisadores analisaram os chamados otólitos sagitta dos 38 exemplares. As estruturas foram fotografadas pelas faces interna e externa e avaliadas por meio de técnicas de análise morfológica.
As anomalias apresentaram diferentes formatos, tamanhos e níveis de complexidade. A maior parte foi encontrada na região ventral dos otólitos e nas margens de uma estrutura conhecida como sulcus acusticus.
Em alguns exemplares, os pesquisadores identificaram uma projeção semelhante a um dedo. Também foram observadas deformações nas margens e variações no formato da espinha predorsal dos otólitos.
O trabalho foi desenvolvido por Jonas Andrade-Santos, Rafael Menezes e Marcelo R. Britto, pesquisadores vinculados ao Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Possível relação com o desastre do Rio Doce
O estudo considera que diferentes fatores podem provocar alterações nos otólitos, entre eles mudanças de temperatura, oscilações de salinidade e outras condições ambientais. Entretanto, os autores apontam o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, como uma provável causa das mudanças observadas.
A barragem se rompeu em novembro de 2015 e liberou milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. O material percorreu o Rio Doce, chegou ao Oceano Atlântico e causou impactos ambientais em Minas Gerais e no Espírito Santo.
De acordo com os pesquisadores, os efeitos físico-químicos e genotóxicos provocados pelos rejeitos podem ter contribuído para as anomalias encontradas. A pesquisa também cita estudos anteriores que identificaram metais pesados em diferentes espécies de peixes e nos otólitos de bagres encontrados em áreas afetadas pelo desastre.
O cangoá vive em regiões estuarinas e próximo ao fundo, em ambientes com sedimentos. Essa característica pode aumentar a exposição da espécie a contaminantes acumulados no ambiente.
Pesquisa não estabelece conclusão definitiva
Embora o estudo indique uma possível relação com os rejeitos do Rio Doce, os pesquisadores ressaltam que ainda não é possível afirmar de maneira definitiva o que provocou as anomalias.
Os peixes foram coletados em 2022, quase sete anos após o rompimento da barragem. Conforme os autores, essa distância de tempo não elimina uma possível ligação, uma vez que metais pesados podem permanecer no ambiente e produzir efeitos durante anos.
Para esclarecer as causas das alterações, os pesquisadores recomendam novos estudos, incluindo análises tridimensionais de radiodensidade e exames da composição química dos otólitos.
Também deverá ser investigada a possibilidade de as anomalias resultarem de uma combinação entre impactos ambientais e fatores genéticos ainda não identificados.




