Indígenas são ameaçados de morte após eleições em Aracruz e caso chega ao Ministério Público Federal
Vídeo publicado nas redes sociais defende violência contra indígenas em meio a discussões sobre terras no município. Lideranças Tupinikim cobram providências e alertam para o risco de novos conflitos.

Uma publicação nas redes sociais provocou preocupação entre comunidades indígenas de Aracruz, no Norte do Espírito Santo, após um homem defender o uso de violência contra indígenas durante comentários sobre disputas territoriais e o resultado das eleições presidenciais.
O vídeo foi publicado nos Stories do Instagram na quarta-feira (28) e ganhou repercussão depois de ser divulgado pela página Povos do Tupinikim. Na gravação, um morador de Aracruz questiona a ocupação de terras indígenas e faz uma declaração considerada ameaçadora pelas lideranças das comunidades.
Ao comentar reivindicações territoriais, o homem afirma que indígenas que ocupassem áreas consideradas por ele como pertencentes a terceiros deveriam receber “uma bala na cara”.
A identidade do autor da gravação não foi divulgada.
O episódio aconteceu poucos dias depois do segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25), e provocou manifestações de representantes indígenas que temem o aumento da hostilidade contra suas comunidades.
Declaração provoca reação de lideranças em Aracruz
A publicação faz referências à antiga Aracruz Celulose e questiona o direito dos povos indígenas sobre áreas que foram objeto de disputas territoriais no município.
O autor do vídeo também menciona o comportamento eleitoral das comunidades indígenas, associando a escolha dos eleitores à possibilidade de perda de terras.
Para representantes dos povos originários, esse tipo de manifestação ultrapassa o debate político e pode estimular episódios de violência.
O coordenador-geral da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), Paulo Pyatã, conhecido como Paulo Tupinikim, demonstrou preocupação com o conteúdo.
Segundo ele, as ameaças contra indígenas não estão restritas às redes sociais. A liderança afirma que comunidades de diferentes regiões brasileiras enfrentam agressões físicas e episódios de violência relacionados a conflitos territoriais.
Paulo também considera preocupante a circulação de discursos que apresentam os povos indígenas como invasores de terras, desconsiderando o histórico de ocupação tradicional e os processos de demarcação.
Denúncia é encaminhada ao Ministério Público Federal
Diante da repercussão, a página Povos do Tupinikim informou que o episódio foi encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF) e à Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos.
A iniciativa busca provocar a análise do conteúdo divulgado e a adoção de eventuais medidas pelas instituições competentes.
O vereador de Aracruz Vilson Jaguareté (PT) também se manifestou sobre o caso.
Ele afirmou que pretende conversar com a deputada federal Iriny Lopes (PT) para discutir providências relacionadas às ameaças e à proteção das comunidades indígenas.
Para o parlamentar, manifestações dessa natureza não podem ser tratadas como situações normais do debate político.
Disputa por terras indígenas tem longa história em Aracruz
A controvérsia envolvendo territórios indígenas em Aracruz não é recente.
O município concentra as terras indígenas oficialmente demarcadas no Espírito Santo, pertencentes aos povos Tupinikim e Guarani.
São três áreas reconhecidas pelo governo federal: Caieiras Velha 2, Tupinikim e Comboios, que juntas somam pouco mais de 18 mil hectares.
Os Tupinikim estão distribuídos pelas aldeias Areal, Caieiras Velha, Irajá, Pau Brasil, Comboios e Córrego do Ouro.
Já os Guarani vivem nas aldeias Boa Esperança, Três Palmeiras, Piraquê-Açu, Olho D’Água e Nova Esperança Ka’aguy Porã.
O reconhecimento dessas terras ocorreu após décadas de reivindicações, mobilizações e disputas envolvendo comunidades indígenas, grandes empreendimentos e o poder público.
Parte desses conflitos esteve relacionada à expansão das atividades da antiga Aracruz Celulose, empresa posteriormente incorporada à estrutura que hoje integra a Suzano.
Paulo Tupinikim contesta a afirmação de que os indígenas seriam invasores. Segundo ele, as comunidades lutaram pelo reconhecimento de territórios tradicionalmente ocupados por seus antepassados.
Lideranças temem agravamento dos conflitos
A preocupação das comunidades não se limita ao vídeo divulgado nesta semana.
Representantes indígenas avaliam que o ambiente de polarização política pode ampliar as tensões envolvendo a posse e o uso de terras.
Paulo Tupinikim também chama atenção para a situação de outros povos que ainda aguardam avanços em processos de reconhecimento territorial, incluindo comunidades no Norte do Espírito Santo.
Para a liderança, mesmo as áreas já demarcadas continuam sujeitas a disputas jurídicas e políticas.
Ele defende a atuação do Ministério Público Federal, da Defensoria Pública da União e de outras instituições para garantir a proteção das comunidades e o cumprimento dos direitos previstos na Constituição.
Caso levanta preocupação com segurança das aldeias
A divulgação do vídeo trouxe novamente ao debate a segurança dos povos indígenas de Aracruz, município que abriga uma das mais importantes concentrações de comunidades Tupinikim e Guarani do Espírito Santo.
As lideranças defendem que manifestações com conteúdo ameaçador sejam apuradas para evitar que conflitos verbais evoluam para episódios de violência.
Até o momento, não foram apresentadas informações sobre a identificação do autor da gravação ou sobre eventuais medidas adotadas após o encaminhamento da denúncia.
O Portal ES FALA mantém espaço aberto para manifestação da pessoa responsável pelo vídeo e para esclarecimentos das instituições envolvidas.
ES FALA: informação Século Diário
Vem aí — FALA, o canal de entrevistas do Portal ES FALA no YouTube, com Cirilo de Tarso.




