A execução de João Vitor da Silva Guimarães, de 22 anos, ocorrida em 28 de novembro de 2024, no bairro Carlos Germano Naumann, marcou um divisor de águas no cenário do crime organizado em Colatina. Após diversas tentativas fracassadas ao longo de um ano, a facção Tropa do Urso, ligada ao Comando Vermelho, conseguiu eliminar a principal liderança de resistência à sua expansão territorial: a chamada Tropa do Nono.
A morte de João Vitor foi o último obstáculo removido para a consolidação da hegemonia da Tropa do Urso em Colatina, que já mantém influência sobre pelo menos dez bairros da cidade, segundo fontes ligadas à segurança pública. Com pouco mais de 120 mil habitantes, Colatina vem enfrentando o avanço silencioso — e cada vez mais violento — do narcotráfico, em especial de facções com vínculos interestaduais.
João Vitor era o principal opositor local da Tropa do Urso. Ele liderava a Tropa do Nono, facção que tinha como referência Bruno Gomes Faria, conhecido como “Nono”, integrante do Terceiro Comando Puro (TCP), e atualmente foragido no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Bruno é o único dos chamados “Irmãos Vera” que segue em liberdade e é apontado como um dos mentores da tentativa de resistir à expansão do Comando Vermelho em solo capixaba.
A emboscada que tirou a vida de João Vitor foi cuidadosamente planejada. A Tropa do Urso infiltrou um aliado no grupo rival — um homem de Jaguaré, que ganhou a confiança dos membros da Tropa do Nono. Com o apoio desse infiltrado, João Vitor e parte de seu grupo foram convencidos a participar de um ritual religioso, onde compareceram desarmados. Foi nesse momento de vulnerabilidade que o crime foi consumado: três tiros mataram João Vitor, e pelo menos uma outra pessoa ficou ferida.
Com a morte de sua principal liderança, a Tropa do Nono praticamente foi desarticulada em Colatina, abrindo caminho para o domínio da Tropa do Urso sobre regiões estratégicas da cidade. Embora ainda haja pequenos focos de resistência, o assassinato representou um golpe certeiro e simbólico, consolidando o poder da facção que já era alvo da Operação Wyoming, deflagrada recentemente pela Polícia Federal.
A operação, que teve repercussão estadual, revelou que as ordens da Tropa do Urso partem diretamente do Rio de Janeiro, com forte articulação entre facções capixabas e o Comando Vermelho. A expansão territorial da facção em Colatina segue uma lógica de intimidação, assassinatos seletivos e cooptação de jovens em situação de vulnerabilidade social.
CONHEÇA OS MODOS OPERANDI DO COMONDO VERMELHO E DA TROPA DO URSO
Nos últimos anos, o avanço do crime organizado no interior do Espírito Santo tem sido marcado por uma mudança preocupante: a migração da estrutura e dos métodos de facções cariocas para cidades do interior capixaba, como Colatina. O caso mais emblemático é o da Tropa do Urso, facção diretamente ligada ao Comando Vermelho (CV) do Rio de Janeiro e que atua em bairros estratégicos do município.
Ambas as organizações compartilham a lógica do domínio territorial, o uso da força armada, a intimidação de comunidades e o controle de pontos de venda de drogas, mas existem diferenças importantes nos modos operandi, principalmente no que diz respeito ao grau de organização, à visibilidade pública e ao grau de enraizamento social.
Comando Vermelho (CV): estrutura mafiosa, controle armado e terror midiático
Originado nas penitenciárias do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho é uma das maiores facções criminosas da América Latina. Seu modo operandi envolve:
- Domínio armado de favelas, com uso de fuzis, granadas e barricadas;
- Exibição de força em redes sociais e vídeos, com armamentos pesados e símbolos da facção;
- Apoio financeiro a moradores, criando um tipo de “pacto social” em áreas dominadas;
- Controle do tráfico com hierarquia rígida, líderes encarcerados ou foragidos comandando de dentro de presídios ou comunidades do Complexo da Maré e Complexo do Alemão;
- Alianças com facções de outros estados, como o fornecimento de drogas e armas para grupos locais.
A facção também costuma agir com marcas simbólicas, como a pichação de muros com a sigla “CV” e ações midiáticas que reforçam sua presença e poder.
Tropa do Urso: o Comando Vermelho em versão regionalizada no Espírito Santo
A Tropa do Urso, embora tenha ligação com o CV e obedeça a ordens diretas do Complexo da Maré, atua com características adaptadas ao contexto de Colatina e municípios do Noroeste capixaba:
- Baixo perfil midiático, mas com forte articulação interna e uso de aplicativos para comunicação cifrada;
- Infiltração social mais discreta, usando vínculos pessoais, familiares e religiosos para cooptar jovens;
- Execuções seletivas para eliminar rivais e consolidar domínio em bairros como Carlos Germano Naumann, São Marcos, Maria das Graças e outros;
- Recrutamento local de integrantes, mas com treinamento e ordens vindas do Rio de Janeiro;
- Operações logísticas menos ostensivas, com uso de motos e carros pequenos para transporte de drogas e armas, evitando chamar atenção de grandes operações.
O grupo evita o confronto direto com o Estado de forma pública, diferentemente do CV no Rio, e foca em estratégias silenciosas de expansão e intimidação comunitária.
Convergências e divergências
Aspecto | Comando Vermelho (RJ) | Tropa do Urso (Colatina) |
|---|---|---|
| Origem | Penitenciárias do RJ | Derivação regional do CV |
| Visibilidade | Alta, com exibição armada | Baixa, com foco na discrição |
| Hierarquia | Rígida, centralizada no Rio | Subordinada ao CV, mas com autonomia local |
| Armamento | Fuzis, granadas, coletes | Armas menores, logística mais leve |
| Táticas | Confronto e domínio visível | Expansão por infiltração e alianças |
| Ações públicas | Pichações, vídeos, intimidação direta | Emboscadas, coação silenciosa |
| Comunicação | Redes sociais, rádios comunitários | Aplicativos e contatos pessoais |
A presença da Tropa do Urso em Colatina e cidades vizinhas é reflexo direto da exportação da criminalidade organizada do Rio de Janeiro para o interior capixaba. A facção já foi alvo da Operação Wyoming, da Polícia Federal, que revelou sua atuação interestadual e o repasse direto de ordens do Complexo da Maré.















