Agora

Justiça condena vereadores e assessores de Colatina por “turismo com dinheiro público”

Sentença aponta uso de diárias para “turismo recreativo” disfarçado de cursos de capacitação; penas incluem devolução de valores, multas e suspensão de direitos políticos

Por ES Fala
· 4 min de leitura Atualizado · Sem comentários
Justiça condena vereadores e assessores de Colatina por “turismo com dinheiro público”

Uma sentença da Vara da Fazenda Pública de Colatina condenou ex-vereadores, vereadores e assessores ligados à Câmara Municipal de Colatina por atos de improbidade administrativa relacionados ao uso de diárias e verbas públicas para participação em cursos considerados irregulares pelo Poder Judiciário.

A decisão é assinada no processo nº 5005351-90.2021.8.08.0014, movido pelo Ministério Público do Estado do Espírito Santo, que investigou viagens realizadas entre 2017 e 2019 para cidades como Brasília, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Seguro.

Segundo a sentença, os cursos serviam como justificativa para viagens de caráter recreativo custeadas com dinheiro público. O juiz afirma que houve “desvio de finalidade”, “enriquecimento ilícito” e “dano ao erário”.

Juiz fala em “agência de turismo” e “lazer com dinheiro público”

Na decisão, o magistrado utilizou termos extremamente duros ao analisar as viagens custeadas pelo Legislativo municipal.

Em um dos trechos, o juiz afirma que as verbas públicas não poderiam transformar o Legislativo em “agência de turismo” e classificou os deslocamentos como “turismo recreativo subsidiado pelo erário”.

A sentença também sustenta que muitos cursos tinham conteúdo genérico, considerados de “baixa densidade acadêmica”, e que poderiam ser substituídos por ensino remoto ou até mesmo por materiais gratuitos disponíveis na internet.

O magistrado destacou ainda que diversos cursos eram realizados próximos a feriados e finais de semana, ampliando o período de permanência dos participantes nas cidades turísticas.

Quem foi condenado

Foram condenados:

  • Renann Bragatto
  • Jolimar Barbosa da Silva
  • Wady José Jarjura
  • Adeuir Francisco Rosa
  • Wanderson Ferreira da Silva
  • Jorge Luiz Guimarães
  • Juarez Vieira de Paula
  • Felippe Coutinho Martins
  • Audreya Mota Franca Bravo

Além de assessores e servidores ligados à Câmara:

  • Keli do Carmo Silva
  • Jovana Baier Avancini
  • Santos Valdeci Vigano
  • Otila Molino Sabadine
  • Cristiane Salume Marino
  • Eliane Zovico Soella.

Condenações pesadas

A sentença determina:

  • devolução integral dos valores;
  • multas civis;
  • suspensão dos direitos políticos;
  • proibição de contratar com o poder público.

Entre as condenações destacadas:

Jolimar Barbosa da Silva

O ex-presidente da Câmara recebeu uma das penas mais severas:

  • R$ 35.065,32 em ressarcimentos e multas;
  • suspensão dos direitos políticos por 11 anos e 8 meses;
  • proibição de contratar com o poder público pelo mesmo período.

O juiz entendeu que Jolimar teve “culpabilidade exacerbada” por atuar simultaneamente como ordenador de despesas e beneficiário das viagens.

Jorge Luiz Guimarães

Foi condenado:

  • ao pagamento de R$ 73.215,24;
  • suspensão dos direitos políticos limitada a 14 anos;
  • proibição de contratar com o poder público também limitada a 14 anos.

Renann Bragatto

A sentença determinou:

  • pagamento total de R$ 28.125,06;
  • suspensão dos direitos políticos por 8 anos e 4 meses;
  • proibição de contratar com o poder público pelo mesmo período.

O juiz menciona na sentença que Renann atualmente exerce função de secretário municipal em Baixo Guandu.

Wady José Jarjura

Foi condenado:

  • ao pagamento de R$ 39.499,23;
  • suspensão dos direitos políticos por 8 anos e 4 meses.

Adeuir Francisco Rosa

Recebeu condenação de:

  • R$ 39.499,23;
  • suspensão dos direitos políticos por 8 anos e 4 meses.

Processos extintos para alguns investigados

A Justiça extinguiu o processo sem julgamento do mérito em relação a alguns investigados que não foram localizados para citação ou por ausência de documentação suficiente.

Também foi determinado o desmembramento do processo em relação ao ex-vereador José Luiz Muniz Araújo, em razão de seu falecimento.

Defesa dos investigados

Durante o processo, os investigados alegaram:

  • legalidade das diárias;
  • pertinência dos cursos com as funções parlamentares;
  • ausência de dolo;
  • aprovação das contas pelo Tribunal de Contas do Estado.

No entanto, o juiz afirmou que a aprovação das contas pelo Tribunal de Contas não impede condenações por improbidade administrativa no Judiciário.

RECURSO

Apesar da condenação aplicada pela Justiça, o processo ainda não terminou definitivamente e os condenados poderão recorrer da decisão ao Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo.

A sentença foi proferida em primeira instância pela Vara da Fazenda Pública de Colatina, o que significa que ainda cabe apresentação de recursos pelas defesas dos envolvidos.

Na prática, o recurso permitirá que desembargadores do TJES reavaliem a decisão, podendo manter, reduzir ou até reformar as condenações impostas pelo juiz.

Entre as penalidades aplicadas estão devolução de valores aos cofres públicos, multas civis, suspensão dos direitos políticos e proibição de contratar com o poder público.

Em ações de improbidade administrativa, as punições mais severas, como a suspensão dos direitos políticos, normalmente passam a produzir efeitos definitivos somente após o chamado trânsito em julgado — quando não houver mais possibilidade de recursos no processo.

Além do recurso ao Tribunal de Justiça, ainda podem existir medidas posteriores junto ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal, dependendo das teses jurídicas apresentadas pelas defesas.

Compartilhe esta notícia

Sem comentários

Deixe seu comentário

Os comentários passam por moderação antes de aparecer.

Mais em Política

As notícias da semana no seu e-mail

Todo fim de semana, o resumo do que mais importou em Colatina, no Noroeste e no Espírito Santo. Grátis, e dá para sair quando quiser.