Pescadores cobram estudos sobre aumento de casos de câncer após desastre de Mariana e fazem alerta sobre saúde no ES

Lideranças afirmam que comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão convivem com aumento de doenças e cobram pesquisas que esclareçam possíveis impactos da contaminação.

A morte do pescador e líder comunitário João Carlos Lambisgoia reacendeu a preocupação de pescadores e moradores de comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), sobre possíveis impactos do desastre na saúde da população. Representantes da categoria afirmam que, desde 2015, têm observado um aumento nos casos de câncer e de outras doenças entre pescadores e moradores de regiões banhadas pelo Rio Doce e pelo litoral capixaba.

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Um dos principais porta-vozes desse alerta é o pescador Braz Laurindo Filho, da Colônia de Pescadores Z-5, da Praia de Santa Cruz, em Aracruz. Segundo ele, a principal reivindicação das comunidades deixou de ser apenas a indenização financeira e passou a ser a realização de estudos científicos capazes de esclarecer se existe relação entre os problemas de saúde e a exposição aos rejeitos da mineração.

“Que façam estudos de verdade. Não penso mais nem em indenização. Quero que estudem, divulguem os resultados e façam alguma coisa para recuperar isso aqui. Protejam a sociedade”, afirmou.

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Imagem crédito Leonardo Sá

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Braz relata que também enfrentou um câncer e precisou mudar completamente sua rotina após passar por cirurgia e tratamento. Segundo ele, diversos pescadores das regiões de Regência, Barra do Riacho, Santa Cruz, Conceição da Barra e São Mateus morreram ou adoeceram nos últimos anos.

Além dos casos de câncer, pescadores afirmam que têm observado o aumento de problemas intestinais, infecções urinárias e inflamações na bexiga. Eles defendem que o poder público realize exames e pesquisas para verificar se existe contaminação no sangue das populações ribeirinhas e dos profissionais que dependem da pesca para sobreviver.

A preocupação também é compartilhada pelo conselheiro federal de controle social e integrante do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional, conhecido como Nego da Pesca. Segundo ele, desde os primeiros anos após o desastre, lideranças pesqueiras alertam órgãos públicos sobre o possível agravamento de doenças nas comunidades atingidas.

Ainda de acordo com Nego da Pesca, denúncias chegaram ao Ministério da Saúde pedindo que a situação fosse tratada como um problema de saúde pública. Ele afirma ainda que pesquisas realizadas em comunidades de São Mateus identificaram concentrações elevadas de metais pesados em exames de sangue e cabelo de moradores.

O coordenador estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Marcus Thadeu, conhecido como Zeca, afirma que a ausência de estudos epidemiológicos aprofundados continua sendo uma das principais falhas no processo de reparação. Segundo ele, embora existam pesquisas acadêmicas sobre o tema, elas ainda são pontuais e insuficientes para dimensionar os impactos na saúde das populações atingidas.

Outro ponto levantado pelos pescadores é a falta de retorno sobre análises realizadas em peixes capturados na região. Braz afirma que exemplares com tumores continuam sendo encontrados e encaminhados para pesquisadores e órgãos ambientais, mas, segundo ele, os resultados desses estudos nunca foram divulgados às comunidades.

Em abril deste ano, pesquisadores do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) apresentaram dados indicando a permanência de contaminação por metais como mercúrio, chumbo, arsênio, cádmio, cobre, zinco e cromo em peixes e camarões da região atingida. Os especialistas também defenderam a realização de estudos semelhantes em seres humanos para avaliar possíveis impactos à saúde.

O Programa Especial de Saúde do Rio Doce (PES Rio Doce), previsto no acordo de repactuação, destinará R$ 700 milhões para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) nos 11 municípios capixabas atingidos pelo desastre: Anchieta, Aracruz, Baixo Guandu, Colatina, Conceição da Barra, Fundão, Linhares, Marilândia, São Mateus, Serra e Sooretama. Os recursos deverão financiar ações voltadas ao atendimento das populações atingidas e ao fortalecimento da rede pública de saúde.

Enquanto aguardam respostas, pescadores afirmam que continuarão cobrando estudos independentes, monitoramento permanente da saúde das comunidades e maior transparência sobre os resultados das pesquisas relacionadas aos impactos do maior desastre socioambiental da história do país.

ES FALA: informação Século Diário

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