Dez anos após desastre de Mariana, pescadores cobram respostas sobre saúde e contaminação no Rio Doce
Novo observatório coordenado pela Ufes terá R$ 10 milhões para monitorar populações atingidas; lideranças reclamam que projeto ainda não foi detalhado às comunidades

Mais de dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), pescadores artesanais do Espírito Santo ainda cobram respostas sobre os possíveis impactos da contaminação na saúde das comunidades atingidas ao longo da Bacia do Rio Doce e do litoral capixaba.
A criação de um novo observatório, coordenado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e financiado com R$ 10 milhões do Ministério da Saúde, é vista pelas lideranças como uma iniciativa importante. Ao mesmo tempo, representantes dos pescadores questionam por que um acompanhamento estruturado da saúde começa somente uma década depois do desastre e afirmam que o projeto ainda não foi efetivamente apresentado às comunidades.
O Observatório Capixaba de Informações e Dados Estratégicos para a Vigilância, Assistência e Resiliência do SUS nos Municípios Capixabas Atingidos da Bacia do Rio Doce e do Litoral Norte Capixaba será coordenado pela epidemiologista Ethel Maciel.
A proposta prevê reunir informações sobre adoecimento, mortalidade e exposição a contaminantes, além da realização de biomonitoramento para investigar a presença de metais pesados no organismo de moradores das regiões atingidas.
Pescadores querem participar das decisões
Para lideranças da pesca artesanal, entretanto, não basta que as comunidades sejam procuradas apenas para fornecer informações. Elas reivindicam participação na construção e no acompanhamento do projeto.
O conselheiro federal de Controle Social e integrante do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional, Manoel Bueno dos Santos, conhecido como Nego da Pesca, afirma que representantes da Associação de Pescadores de Jacaraípe participaram de reuniões relacionadas ao assunto, mas que o funcionamento do observatório não teria sido detalhado.
“Desse observatório a gente não tem muita propriedade para falar, porque nunca sentaram para detalhar isso para nós. É preciso dialogar com a gente. Não pode ser da forma que está sendo feito. Se, de fato, querem fazer esse serviço, precisa pensar junto com quem foi atingido”, afirma.
Segundo Nego da Pesca, os encontros realizados até agora teriam servido principalmente para que os atingidos apresentassem os problemas vivenciados nas comunidades.
Para ele, é necessário que os pescadores saibam como essas informações serão utilizadas e participem das decisões sobre as ações que serão desenvolvidas.
Água e peixe estão entre as preocupações
Entre as questões apontadas pelas comunidades estão a qualidade da água e a segurança dos alimentos retirados dos rios e do mar.
“Nós estamos preocupados com o peixe que estamos colocando na mesa da população brasileira. Precisamos ter garantia de que esse peixe é próprio para consumo humano”, afirma Nego da Pesca.
O dirigente cita pesquisas acadêmicas que já apontaram presença de contaminantes em diferentes componentes ambientais e organismos aquáticos da região e também manifesta preocupação com comunidades que utilizam água de poços em áreas próximas ao Rio Doce.
As lideranças defendem que sejam ampliadas as pesquisas capazes de determinar com segurança a exposição das populações e seus eventuais efeitos sobre a saúde.
Reunião em Colatina lembrou pescadores que morreram
A preocupação com a saúde também esteve presente em uma reunião realizada recentemente em Colatina.
Durante o encontro, representantes dos pescadores fizeram um minuto de silêncio em homenagem a lideranças do movimento que morreram recentemente, entre elas Simeão Barbosa, de Povoação, e João Carlos Lambisgoia, ex-presidente do Sindicato dos Pescadores e Marisqueiros do Espírito Santo (Sindpesmes).
As lideranças relatam preocupação com casos de câncer e outros problemas de saúde observados nas comunidades atingidas.
Até o momento, porém, não há estudos epidemiológicos abrangentes que permitam estabelecer uma relação direta entre esses casos de adoecimento e a exposição aos rejeitos decorrentes do rompimento da barragem. Justamente a falta desse acompanhamento ao longo dos anos é apontada pelos pescadores como uma das principais lacunas do processo de reparação.
“Será que vai ter resultado?”
Na região de Aracruz, a criação do observatório também é recebida com expectativa e desconfiança.
O pescador Braz Laurindo Filho, da Colônia de Pescadores Z-5, da Praia de Santa Cruz, afirma que qualquer iniciativa capaz de investigar os impactos sobre a saúde será bem-vinda, desde que apresente resultados concretos.
“Bem-vindo é, desde que faça um trabalho correto, com resultados. Dados têm, provas têm, mas a gente já vem se decepcionando desde 2015. Será que vai ter resultado ou é só para maquiar e dizer que está fazendo alguma coisa?”, questiona.
Braz também defende participação efetiva dos atingidos desde a elaboração dos projetos.
Segundo ele, além das preocupações relacionadas à saúde, as consequências do desastre continuam afetando economicamente quem vive da pesca.
“Hoje a gente tem dificuldade de vender e exportar nosso camarão, porque dizem que tem contaminação. Ninguém quer comprar”, relata.
Observatório prevê biomonitoramento
A coordenadora do observatório, professora Ethel Maciel, explicou que o projeto ainda está em sua fase inicial, passando por procedimentos burocráticos e pela organização das pesquisas.
Segundo ela, a participação das comunidades atingidas está prevista.
A proposta inclui a realização de um seminário com pescadores, ribeirinhos e outros grupos para apresentar o projeto e ouvir as demandas existentes nos territórios.
O observatório pretende integrar informações ambientais e de saúde para produzir evidências científicas mais consistentes sobre a situação das populações atingidas e estruturar de maneira permanente a vigilância em saúde nos 11 municípios capixabas reconhecidos como atingidos.
A própria ausência de um monitoramento estruturado ao longo da última década é apontada como uma dificuldade para estabelecer possíveis relações entre exposição a contaminantes e doenças registradas entre os moradores.
Para as lideranças da pesca, entretanto, a participação precisa ocorrer antes que todas as decisões estejam tomadas.
Mais de uma década depois do rompimento da barragem de Fundão, a reivindicação permanece: os pescadores querem saber não apenas o que existe na água e nos peixes, mas também se a exposição aos contaminantes deixou consequências na saúde de quem vive e trabalha às margens do Rio Doce e no litoral atingido.
ES FALA: informações Século Diário.




