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Listas de boicote a eleitores de Lula circulam em Colatina, Baixo Guandu e outras cidades do ES

Comerciantes, profissionais liberais e até igrejas aparecem entre os alvos de campanhas nas redes sociais após as eleições. Especialistas alertam para possíveis consequências judiciais.

Por Cirilo de Tarso
Fundador e diretor do Portal ES FALA
· 4 min de leitura · Sem comentários
Listas de boicote a eleitores de Lula circulam em Colatina, Baixo Guandu e outras cidades do ES

A disputa presidencial terminou nas urnas, mas seus reflexos continuam atingindo comerciantes e profissionais do Espírito Santo. Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no último domingo (25), listas com nomes de pessoas e estabelecimentos associados à esquerda passaram a circular em redes sociais e aplicativos de mensagens, incentivando consumidores a deixar de contratar serviços ou comprar produtos desses locais.

A prática foi relatada em pelo menos seis municípios capixabas: Colatina, Baixo Guandu, Vitória, Santa Maria de Jetibá, Afonso Cláudio e Cachoeiro de Itapemirim.

O movimento repete uma situação registrada em 2022, quando listas semelhantes foram divulgadas após a vitória de Lula nas eleições presidenciais daquele ano.

Desta vez, os relatos mostram que até pessoas que não declararam publicamente suas preferências eleitorais estão sendo incluídas nas relações de boicote.

Profissionais dizem sofrer consequências mesmo sem declarar voto

Entre os atingidos está um tatuador que afirma manter distância de discussões partidárias justamente por atender clientes com diferentes opiniões políticas.

Apesar disso, seu nome apareceu em listas divulgadas tanto em 2022 quanto em 2026.

O profissional acredita que sua inclusão esteja relacionada a preconceitos e estereótipos, e não a qualquer manifestação pública de apoio a um candidato.

Ele relata preocupação com a possibilidade de as hostilidades ultrapassarem as redes sociais e afetarem sua segurança e seu trabalho.

Outra situação envolve uma advogada de uma cidade da Região Serrana do Espírito Santo.

Segundo ela, seu nome passou a ser associado a determinado posicionamento político, possivelmente por causa das opiniões de familiares.

A profissional afirma que, depois da divulgação da lista, percebeu uma redução no número de seguidores de seu perfil nas redes sociais. Cerca de 20 pessoas deixaram de acompanhá-la.

Embora o número pareça pequeno, a advogada teme que a exposição tenha consequências profissionais, especialmente por atuar em um município de menor porte, onde as relações comerciais e pessoais são mais próximas.

Até igrejas aparecem entre os alvos

Em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo, os relatos indicam que o movimento de boicote não ficou restrito a empresas e profissionais liberais.

Algumas igrejas também teriam sido incluídas em listas, com incentivo para que fiéis deixassem de frequentar as celebrações.

Empresas citadas nas publicações começaram a se manifestar para esclarecer sua posição.

Uma delas, a Amabilis, informou que não possui alinhamento com correntes políticas e destacou que sua atuação está voltada ao atendimento dos clientes, à valorização dos colaboradores e à qualidade dos produtos.

Divulgação de listas pode gerar responsabilização

A criação de listas para incentivar prejuízos econômicos contra pessoas por suas convicções políticas levanta questionamentos jurídicos.

Um advogado do interior do Espírito Santo, que também teve seu nome incluído em uma dessas relações, afirma que a Constituição Federal protege a liberdade de escolha política e o exercício das atividades profissionais.

Entre os dispositivos mencionados estão o artigo 14, que assegura o voto livre e secreto, e o artigo 1º, inciso V, que estabelece o pluralismo político como um dos fundamentos da República.

O advogado também cita a proteção constitucional ao livre exercício profissional e à livre iniciativa.

Dependendo das circunstâncias, a divulgação de informações ofensivas ou falsas e a promoção de perseguição podem resultar em pedidos de indenização por danos morais e eventual responsabilização criminal.

Entretanto, a existência de uma lista de boicote não caracteriza automaticamente um crime. A avaliação jurídica depende do conteúdo divulgado, da intenção, do contexto e da conduta de cada envolvido.

Da mesma forma, a liberdade de um consumidor escolher onde comprar ou contratar serviços não se confunde, necessariamente, com práticas ilícitas de perseguição, ameaça ou difamação.

Situação preocupa profissionais de cidades menores

A circulação dessas listas chama atenção especialmente em municípios do interior, como Colatina e Baixo Guandu, onde a identificação pública de comerciantes e prestadores de serviços pode alcançar rapidamente suas redes de relacionamento.

Os relatos indicam que o impacto não se limita às divergências eleitorais. Pessoas que não participaram publicamente da campanha também afirmam ter sido associadas a posições políticas e expostas ao boicote.

O episódio reforça a discussão sobre os limites entre a liberdade de manifestação política, o direito de escolha do consumidor e a proteção da honra e da atividade profissional.

O Portal ES FALA mantém espaço aberto para manifestações de pessoas e estabelecimentos citados nas listas, bem como de eventuais responsáveis por sua divulgação.

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