Nesta quarta-feira, 5 de novembro de 2025, completa dez anos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), um marco trágico que entrou para a história como o maior desastre socioambiental do país.
A tragédia provocada pela mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton, despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro sobre o distrito de Bento Rodrigues, matando 19 pessoas e destruindo comunidades inteiras ao longo de 675 quilômetros do Rio Doce, até o mar do Espírito Santo.
Uma década depois, o que resta é uma combinação de lama, promessas descumpridas e feridas abertas. As famílias atingidas ainda lutam por moradia definitiva, comunidades ribeirinhas seguem com o Rio Doce impróprio para consumo e pesca, e os processos judiciais caminham a passos lentos.
A Fundação Renova, criada para gerenciar as reparações, é alvo de críticas por burocracia, lentidão. Segundo dados do próprio Ministério Público, menos da metade das metas de reparação socioeconômica e ambiental foi cumprida até hoje.
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Consequências que atravessaram o tempo
As consequências vão muito além do barro e das ruínas de Bento Rodrigues.
O impacto ambiental devastou ecossistemas, matou espécies inteiras de peixes, e contaminou o solo e lençóis freáticos.
No Espírito Santo, onde o Rio Doce deságua, municípios como Colatina, Baixo Guandu e Linhares enfrentaram colapso no abastecimento de água potável e convivem até hoje com a desconfiança da população sobre a qualidade da água.
As consequências humanas também persistem. Casos de depressão, ansiedade e doenças crônicas aumentaram entre os atingidos, que relatam o sentimento de terem sido “esquecidos pela lama”.
O rompimento da barragem de Fundão não foi um acidente isolado, mas o retrato de um modelo de mineração baseado em negligência e lucro imediato.
Auditorias posteriores mostraram falhas conhecidas e ignoradas na estrutura da barragem, alertas técnicos não levados a sério e ausência de planos de emergência eficazes.
Mesmo assim, nenhum executivo foi condenado criminalmente, e as empresas seguem operando com lucros bilionários.
A justiça brasileira ainda não deu uma resposta definitiva, enquanto a principal ação judicial corre na Inglaterra, onde a BHP responde por indenizações a mais de 700 mil vítimas brasileiras.
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O Rio Doce, um símbolo ferido
O Rio Doce, que banha dezenas de cidades de Minas Gerais e Espírito Santo, se tornou um símbolo de resistência e abandono.
Projetos de revitalização seguem em ritmo tímido, e cientistas afirmam que o rio poderá levar mais de meio século para recuperar plenamente suas condições ambientais.
A bacia hidrográfica, antes fonte de vida, se transformou em uma lembrança amarga daquilo que o país ainda não foi capaz de resolver: a convivência entre desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental.
Dez anos depois, a tragédia de Mariana continua ecoando como um grito de impunidade.
As sirenes da mineração voltaram a tocar em Brumadinho, em 2019, com outro rompimento e novas centenas de vítimas, provando que as lições não foram aprendidas.
O Brasil ainda carece de um sistema rigoroso de fiscalização, de punição exemplar e de transparência real na indústria mineradora.
Enquanto isso, as famílias de Bento Rodrigues e das margens do Rio Doce continuam esperando por justiça — e por um país que aprenda a valorizar a vida acima do lucro.
Dez anos depois, lembrar Mariana não é um ato de nostalgia ou tragédia, mas um compromisso ético.
É exigir que o país não aceite mais desculpas, que a reparação seja completa e digna, e que as mineradoras sejam responsabilizadas integralmente pelos danos que causaram.
O tempo passou, mas o barro da impunidade continua sedimentado na história brasileira.
E, enquanto a justiça não chega, o silêncio das vítimas segue sendo o som mais alto do Rio Doce.















