“Apagão de mão de obra” se agrava em Linhares e já afeta serviços públicos e comércio

Falta de trabalhadores leva empresa de limpeza a cogitar contratação até fora do país; restaurantes e supermercados reduzem horários ou buscam profissionais em outras cidades

A escassez de mão de obra em Linhares deixou de ser um problema pontual e deve continuar ao longo de 2026. O chamado “apagão de mão de obra” tem provocado queixas recorrentes, principalmente nos setores de alimentação, supermercados e construção civil, que enfrentam dificuldades para contratar funcionários, ampliar operações ou até manter horários normais de funcionamento.

Publicidade

O impacto já ultrapassou a iniciativa privada e começou a atingir também a prestação de serviços públicos essenciais. No início deste ano, a coleta de lixo domiciliar no município registrou atrasos pontuais, atribuídos à dificuldade de manter equipes completas. O serviço é executado pela EPPO Saneamento Ambiental e Obras.

Segundo o diretor da empresa, Ricardo Tossi, a falta de trabalhadores é tão severa que a companhia avalia, inclusive, a contratação de profissionais fora do Brasil.

Publicidade

“Temos preferência por moradores da cidade de Linhares. Caso a gente não consiga fechar essas vagas com os munícipes, vamos ter que trazer de fora. Pode ser de cidades vizinhas, estados vizinhos ou até de outros países. Vai depender da necessidade e dos subsídios que teríamos que oferecer”, afirmou.

Comércio reduz horários por falta de funcionários

A crise também atinge em cheio o setor de alimentação. Um restaurante localizado no bairro Gaivotas, em Linhares, decidiu encerrar o funcionamento noturno, quando trabalhava com lanches e pizzas. O estabelecimento passou a atender apenas no horário de almoço, com buffet e churrasco. A decisão foi comunicada pela própria proprietária nas redes sociais.

“Não é porque faliu, não. É exclusivamente por causa da falta de mão de obra em Linhares. Trabalhar em dois turnos sozinhos compromete a qualidade de vida e também o atendimento de qualidade que a gente sempre prezou”, explicou.

O setor supermercadista vive situação semelhante. A maior rede de supermercados da cidade anunciou publicamente a possibilidade de contratar trabalhadores de outras cidades, oferecendo benefícios como hospedagem, alimentação, transporte e escala diferenciada, especialmente para o cargo de operadora de caixa, como tentativa de suprir a carência de profissionais.

Publicidade

Empregos crescem, mas vagas seguem abertas

Apesar das dificuldades relatadas por empresas e prestadores de serviço, os dados oficiais do mercado de trabalho mostram um cenário aparentemente contraditório. De acordo com levantamento parcial do Novo Caged, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, Linhares se destacou no Espírito Santo em 2025.

No período, o município contabilizou 36.146 admissões e 34.273 desligamentos, resultando em um saldo positivo de 1.873 empregos formais. O crescimento ajuda a explicar, em parte, a redução no número de pessoas disponíveis para contratação imediata.

Estrangeiros: solução ou novos custos?

Quase dez anos após a maior crise migratória de venezuelanos para o Brasil, Linhares recebeu um número expressivo de imigrantes, que hoje vivem e trabalham em diversas regiões da cidade. Grandes empresas instaladas no município, como a WEG, já contam com estrangeiros em seus quadros de funcionários.

No bairro Boa Vista, uma família venezuelana optou por empreender e abriu a Distribuidora de Bebidas Venezuela, que se tornou referência na região. O estabelecimento funciona praticamente todos os dias, com horários flexíveis, muitas vezes avançando pela madrugada.

Na avaliação de empresários locais, a contratação de trabalhadores estrangeiros que já residem em Linhares pode representar um custo menor do que buscar mão de obra totalmente de fora, o que geralmente envolve despesas adicionais com moradia, alimentação e outros subsídios.

O problema, segundo relatos do setor produtivo, é que até esse público começa a ficar escasso, tornando cada vez mais provável que empresas passem a buscar trabalhadores em outras cidades, estados ou, em último caso, em outros países.

Falta mão de obra ou falta salário? O debate que o Brasil evita enfrentar

O chamado “apagão de mão de obra” em Linhares virou tema recorrente entre empresários, prestadores de serviços e até na gestão de serviços públicos. Restaurantes reduzem horários, supermercados oferecem benefícios extras e empresas de limpeza urbana cogitam contratar trabalhadores até fora do país. As vagas existem, mas os trabalhadores não aparecem.

A pergunta que insiste em ficar fora do debate é simples — e incômoda: por que sobra vaga, mas ninguém discute o aumento real do valor da mão de obra?

Os números oficiais ajudam a entender parte do cenário. Dados do Novo Caged, divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mostram que Linhares fechou 2025 com saldo positivo de quase 1,9 mil empregos formais. Ou seja, o município cresce, gera oportunidades e reduz o número de pessoas disponíveis no mercado.

Mas crescimento econômico, por si só, não explica tudo.

Na prática, o que se observa é um mercado exigente com o trabalhador — pedindo experiência, flexibilidade de horário, múltiplas funções e alta produtividade — enquanto os salários oferecidos seguem praticamente estagnados, muitas vezes próximos do mínimo legal. Em alguns setores, a conta simplesmente não fecha para quem precisa pagar aluguel, transporte, alimentação e ainda manter uma mínima qualidade de vida.

O discurso dominante costuma apontar o dedo para o trabalhador: “ninguém quer trabalhar”, “as pessoas não têm compromisso”, “preferem benefícios sociais”. Mas pouco se discute se o que está sendo oferecido é compatível com o custo de vida atual e com a carga física e emocional exigida por determinadas funções.

A situação chega ao ponto de empresas avaliarem contratar mão de obra estrangeira ou trazer trabalhadores de outras cidades, arcando com custos de hospedagem, alimentação e transporte. A contradição é evidente: se há recursos para bancar esses subsídios, por que o reajuste salarial não entra na pauta?

O resultado é um mercado desequilibrado. De um lado, empresários pressionados pela falta de funcionários; do outro, trabalhadores que não aceitam mais jornadas longas e salários baixos em troca de pouco reconhecimento. No meio disso tudo, serviços essenciais começam a sentir os efeitos, como já ocorreu com atrasos pontuais na coleta de lixo e redução de horários no comércio.

Linhares vive um momento econômico importante, com geração de empregos e atração de investimentos e uma gestão pública reconhecida pela competência. Mas o debate sobre mão de obra precisa amadurecer. Não basta falar em vagas abertas. É preciso discutir condições de trabalho, remuneração, qualidade de vida e valorização profissional.

Enquanto esse assunto continuar sendo tratado como tabu, o “apagão de mão de obra” seguirá sendo apontado como problema — quando, na verdade, pode ser apenas o sintoma de um mercado que precisa se ajustar à nova realidade.

Notou alguma informação incorreta nesta matéria? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão abaixo e envie sua mensagem.

Notificar informação incorreta

Notou alguma informação incorreta nesta matéria? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Envie sua mensagem usando o formulário abaixo.