A reconstituição da ação policial que terminou com a morte do vistoriador Danilo Matos Lipaus, de 20 anos, em Colatina, no Noroeste do Espírito Santo, voltou a mobilizar familiares e advogados do caso. O procedimento foi realizado na noite desta quarta-feira (11) e conduzido por um perito da Polícia Científica do Espírito Santo (PCIES), com o objetivo de esclarecer a dinâmica dos fatos.
Danilo foi morto na madrugada de 1º de fevereiro de 2025, após uma série de abordagens policiais nas ruas entre os bairros São Braz e Aeroporto. Segundo as investigações, o jovem conduzia uma Fiat Strada branca e não teria parado em quatro tentativas de abordagem da Polícia Militar. Durante a ocorrência, ele foi atingido por cinco disparos, enquanto mais de 40 tiros teriam sido efetuados contra o veículo.
Para a reprodução simulada dos fatos, seis policiais militares que participaram da ocorrência foram convocados para prestar esclarecimentos, como testemunhas ou envolvidos. São eles:
- Rodrigo de Jesus Oliveira – 3º sargento
- Ricardo Nascimento dos Santos – soldado
- Ramon Lucas Rodrigues Souza – soldado
- Dearli de Jesus Almeida Junior – soldado
- Renan Pessimilio – 3º sargento
- Eduardo Nardi Ferrari – soldado
A diligência foi solicitada pela defesa de dois dos militares — o 3º sargento Renan Pessimilio e o soldado Eduardo Nardi Ferrari — no âmbito de um procedimento conduzido pela Corregedoria da Polícia Militar. No processo administrativo, foram instaurados Conselhos de Disciplina que irão avaliar a conduta dos agentes envolvidos na ação.
Paralelamente, a Polícia Civil concluiu, em maio do ano passado, um inquérito sobre o caso. A investigação apontou que dois policiais militares poderiam responder por tentativa de homicídio. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que deverá analisar se haverá ou não o oferecimento de denúncia. O processo tramita sob sigilo.
Família questiona procedimento
A advogada Naianne Lara Gonçalves Lima, que representa a família de Danilo, afirma que a reconstituição não faz parte de nenhum dos inquéritos que investigaram a morte do jovem. Segundo ela, tanto o Inquérito Policial Militar quanto o conduzido pela Polícia Civil já foram concluídos e estão atualmente sob análise do Ministério Público.
De acordo com a defesa da família, o procedimento ocorre apenas na esfera administrativa da Polícia Militar, responsável por avaliar eventuais punições disciplinares aos policiais envolvidos, incluindo possível expulsão da corporação. Por esse motivo, segundo a advogada, a diligência não conta com participação do Ministério Público nem com controle do Poder Judiciário.
A forma como o procedimento vem sendo conduzido tem aumentado a apreensão da família, que afirma aguardar há mais de um ano por justiça pela morte do jovem. A defesa também questiona o fato de a reconstituição ter sido autorizada pela Corregedoria da corporação, que, segundo a família, já teria absolvido dois policiais em apurações internas, mesmo diante de registros em vídeo analisados no processo e que, conforme a família, contradizem versões apresentadas por eles em depoimento.
Outro ponto levantado pela defesa é que nem todos os policiais diretamente envolvidos na ocorrência teriam participado da reprodução simulada. A família também afirma que militares subordinados hierarquicamente aos investigados foram convocados para participar da reconstrução dos fatos.
Diante da situação, os familiares esperam que o Ministério Público analise o inquérito com urgência e decida sobre o eventual oferecimento de denúncia contra os responsáveis pela morte de Danilo. Na esfera administrativa, a expectativa é que a Corregedoria avalie o caso com rigor, inclusive quanto à permanência dos policiais na corporação.
Defesa dos policiais
O advogado Pedro Lozer Pacheco, que representa os militares Rodrigo de Jesus Oliveira e Ramon Lucas Rodrigues Souza, afirmou em nota que ambos sempre colaboraram integralmente com as autoridades responsáveis pela investigação, prestando depoimentos de forma transparente e relatando fielmente os fatos ocorridos.
Segundo ele, desde o início os policiais apresentaram sua versão com clareza e confiaram no trabalho das instituições responsáveis pela apuração. O advogado afirma ainda que o inquérito conduzido pela Polícia Civil reuniu elementos que, segundo a defesa, corroboram a narrativa apresentada pelos militares, indicando que a atuação ocorreu dentro das hipóteses legais de excludente de ilicitude, especialmente no contexto de estrito cumprimento do dever legal e legítima defesa.
Pacheco também destacou que a reconstituição representa “mais uma etapa natural e importante do processo investigativo”, permitindo uma análise técnica mais detalhada da dinâmica dos acontecimentos.
Já o advogado Rodrigo Vidal de Freitas, que representa o 3º sargento Renan Pessimilio e o soldado Eduardo Nardi Ferrari, também manifestou confiança no trabalho das instituições. Em nota, ele afirmou ter convicção de que seus clientes agiram respeitando as diretrizes legais e amparados pelas excludentes de ilicitude.
Segundo o defensor, a reprodução simulada dos fatos poderá contribuir para esclarecer ainda mais o ocorrido. Ele acrescentou que manifestações mais detalhadas neste momento poderiam ser imprudentes, já que as provas ainda estão em produção no âmbito do procedimento administrativo.
A defesa afirmou ainda que permanecerá à disposição para esclarecimentos após a conclusão da apuração.
O espaço segue aberto para manifestação de outros advogados que representam os envolvidos no caso.














