Jornalista Nilo Tardin publica levantamento histórico “Colatina, a soberana do Rio Doce” e encanta leitores

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Ela nasceu em berço de ouro.  Filha da nata aristocrática paulistana, Collatina Soares Azevedo Muniz Freire emprestou o raro nome de mulher à cidade que a eternizou na geografia brasileira. 

Ao menos uma vez, Dona Collatina – assim mesmo com dois éles -, pisou na terrinha a famosa Colatina de 123 mil moradores, no noroeste do Espírito Santo. Esteve aqui em comitiva no intento de inspecionar a ferrovia que cortava o centro da vastíssima e então despovoada, região norte, coberta de florestas intocadas.  

O passeio de trem no sacolejante carro especial ao lado do marido, o senador José de Melo Carvalho Muniz Freire, três filhas Olga, Dora e Ilma ocorreu numa quinta-feira, 16 de fevereiro de 1911, conforme noticiou o jornal Estado do Espírito Santo.

A nota tipográfica que prova a passagem da dama na cidade é uma revelação inédita do escritor Estilaque Ferreira dos Santos. “Sim esteve.  E Collatina foi de propósito a conhecer a cidade”, atestou.

A impressão dela sobre a efervescente cidadela cercada de montanhas encantoada pelo Rio Doce nunca veio à tona. Também pudera.

O gigantismo político do marido Muniz Freire – advogado, jornalista, governador do Espírito Santo em dois mandatos (1882-1886 / 1900-1904) vereador, deputado estadual, federal e senador (1905-1914), na certa destronou a figura talentosa da mulher a frente do seu tempo como define a jornalista Maria Teresa Paulino, pesquisadora da trajetória de Collatina, a Soberana do Rio Doce.

“Pouco se sabe da biografia da mulher que batizou nossa terra com título soberano de Princesa do Norte. A cultura machista contribuiu para reduzir o brilho de uma estrela da arte e da elegância”, analisa a jornalista Teresa.

Muniz Freire faleceu no Rio de Janeiro – Distrito Federal do Brasil aos 56 anos, a 3 de abril de 1918. De seu casamento com Collatina teve 10 filhos. Izilda, José de Melo Carvalho Muniz Freire Filho, Alarico, Átila, Genserico, Olga, Dora, Ragadázio, Manoel e Ilma.

Sem dúvida, o senador era apaixonado pela esposa naquelas noites tórridas e românticas.

O nome a Villa de Colatina foi dado em sua honra ao Arraial de Santa Maria pelo desembargador Afonso Cláudio em 9 de dezembro de 1899.  Por outro lado, Afonso Cláudio também virou nome de cidade na região central do Espírito Santo.

Quase 156 anos após seu nascimento são assombrosas as marcas deixadas por onde passou e viveu.  Atualmente, no casarão que morou anos a fio na Avenida Copacabana Nº 1.285 no Rio foi construído um prédio nos anos 50 denominado Edifício Colatina. O terreno foi vendido em leilão púbico do espólio publicado em edital de 1947.

O colatinense Jorginho Herzog – taxista no Rio de Janeiro – esteve no lugar e encaminhou a foto do condomínio com apartamentos avaliados na faixa de R$ 1 milhão.

Já o município capixaba saiu de minúsculo vilarejo no meio da mata impregnado de febre lacustre a Cidade Jardim, encanto dos moradores e visitantes.

Conta com um Produto Interno Bruto estimado em R$ 3,1 bi, sendo 262º município de maior PIB do País. A renda per capita é de R$ 26 mil conforme IBGE – (2015).

Forte personalidade influenciou da política do marido
 

Collatina nasceu rica, bonita e inteligente a 24 de novembro de 1864 em Campinas (SP). Tocava piano em saraus, poetisa, declamava nos elegantes salões paulistas, capixabas e cariocas, dominava francês, italiano e alemão.

Casaram-se em São Paulo no dia 28 de janeiro de 1882. Na certa não deixava passar em branco, e dava pitacos na direção da política do maridão poderoso.

Tanto que uma das obras colossais do governo dele foi o magnifíco Teatro Melpômene, em Vitória, sendo o primeiro prédio dotado de luz elétrica do estado, recorda Estilaque.

O prédio de madeira foi destruído pelo fogo em 1925.  Político em tempo integral, o governador também inspirou o nome de outro município, Muniz Freire, no Sul capixaba.
 
O doutor em história Estilaque Ferreira  é autor do livro da Coleção Grandes Nomes: Muniz Freire, onde detalha a vida pessoal e política do líder positivista. Nas 599 páginas, o professor traça um perfil  dos costumes, política, sociedade e cultura capixaba ao longo dos séculos 18 e 19.  
 
A matriarca Collatina Soares de Azevedo neta do barão da Paranapanema faleceu aos 82 anos em 24 de março de 1945. De longe, ela acompanhou o crescimento desta cidade, está sepultada no jazigo da família Muniz Freire no Cemitério São João Batista, em Botafogo (RJ) ao lado de entes queridos

A parada do lanche ao redor da estação colatinense inspira momentos únicos entre a ficção e a realidade na odisséia colatinense a caminho do centenário que dar-se-á  em 30 de dezembro de 2021. 

O esmero da mesa, preparada com antecedência, o jogo de fina porcelana decorada de flores azuis, bules lilás e xícaras adocicadas de puro mel selvagem à espera da visita ilustre, instiga a imaginação numa cena digna do túnel do tempo.

– É uma honra estar aqui, uma lembrança que pousará no meu coração o resto da vida, poderia ter ouvido o zeloso garçom ao servir o café à dona Collatina.

Antes de a flamejante locomotiva a vapor partir rumo ao ponto final da Ferrovia Vitória a Diamantina, ela lança olhar sobre as verdejantes ilhas do imponente Rio Doce.  Aquele longo suspirar poderia ter sido inevitável.

Collatina também deu nome de meninas na cidade nos 20

Um bisneto de Dona Collatina, Jorge Muniz Freire Júnior reside em Teresópolis na região serrana do Rio de Janeiro. Contudo diz não saber quase nada sobre a matriarca,  mas revela que seu pai antes de falecer foi homenageado na cidade de Muniz Freire.

“Meu pai trouxe de lá recordações e um diploma com o nome de todos os filhos de minha bisavó”, afirmou. Além dos títulos de fidalguia portuguesa, a filha de Sebastião Rodrigues de Azevedo herdou o nome da mãe Colatina Soares.

Alega que conheceu seu avô Genserico no final da vida. Genserico está sepultado no túmulo familiar no Cemitério São João Batista.

 “Na ocasião da conquista do território, muitas famílias puseram o nome nas filhas de Colatina”, destacou mestre Estilaque.

O radialista cearense Carlos Pinto também decidiu pôr o nome da filha em honra à cidade que o acolheu de braços abertos assim que pisou no Estado. “Só tenho a agradecer as oportunidades ”, aclamou.

Agora, a pequena Carliany Colatina Mota Alves Pinto, 12 anos convive feliz com o nome diferente que guarda na Certidão de Nascimento lavrada no Cartório Orlando Morandi.  “Foi a única nos últimos 50 anos”, constatou o ex-tabelião Dudu Morandi.

Concessionária Rio Pax que administra a mais antiga necrópole carioca anuncia que a velha documentação do cemitério criado em 1852 ficou na Santa Casa de Misericórdia do RJ antiga mantenedora do cemitério.

De acordo com a direção da Rio Pax, lá estão enterrados artistas famosos,  além personagens históricos como Santos Dumond, Cândido Portinari, José de Alencar, Carmem Miranda, Chacrinha, Cazuza e nove ex-presidentes da República, a exemplo. Dona Collatina está enterrada no Jazido 3774 – Aléa 10.

Em 2015, o Cemitério de São João Batista foi o primeiro da América Latina a ter um mapa virtual que pode ser visto no Google Street View.

Recortes de jornais garimpados pelo radialista e pesquisador Fábio Pirajá nos arquivos digitais, permitem montar um rápido quebra-cabeças do dia a dia de Dª Collatina.

De idas e vindas a Igreja como Aia do Senhor, a devoção a Nossa Senhora, dedicação ao marido e zelo na educação da prole numerosa ficaram registrados em notas curtas nos periódicos capixabas e cariocas.

Basta um toque no Google.  Sabe-se de cara que Colatina é a única cidade no mundo com o nome de mulher a quem deu  o majestoso título de Princesa do Norte.

O significado remonta da mitológica Roma que tomou a Colácia a força dos sabinos, habitada por  mulheres exuberantes conhecidas como Deusa das Colinas.  Uma estrada construída em 585 A.C, ligando Roma ao Lácio existe até hoje a extraordinária Via Collatina. 

“Fiquei feliz e orgulhoso”, disse  o professor de italiano Flávio Inocêncio ao pisar na Via Collatina,   uma movimentada e moderna avenida  cortando o centro de Roma.  Possui mais ou menos 12 km de extensão.

“Tem uma parte histórica protegida por lei. Agora serve para desafogar o trânsito da capital, dotada até de metrô.  É uma das maiores de Roma”, disse Flávio que volta e meia está na Itália a serviço como especialista em cidadania italiana.

Localizador

Colatina fica localizada no coração do Espírito Santo. É uma cidade partida ao meio pelo deslumbrante Rio Doce, mansamente interligada pela ponte Florentino Avidos desde 1928.

Na chegada do século 21, a expansão sem controle ao longo da linha do trem começa a mudar.

Quarenta novos loteamentos foram abertos na cidade, num clara mudança de perfil urbano com oferta com cerca de 8 mil lotes, informa o engenheiro urbanista Francisco Hermes Lopes.

Arranha-céus de 21 e 23 andares foram erguidos próximos a Avenida Senador Moacyr Dalla, o aterro da Beira Rio com 140 mil metros quadrados.  O Aeroporto Regional é outro diferencial na logística da cidade de 123 mil habitantes.

 

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