A morte de Adelia Lamburghini Barbosa, de 44 anos, baleada na tarde de sábado (14) no bairro São Miguel, em Colatina, vai além de mais um registro policial. O caso deflagra uma discussão incômoda, mas necessária: quando a violência deixa de atingir quem escolheu o caminho do crime e passa a matar cidadãos comuns, o problema deixa de ser apenas policial e se transforma em um fracasso coletivo da segurança pública.
No imaginário de muitos moradores, existe uma percepção clara — e dura — sobre a chamada “guerra do tráfico”. Quando criminosos entram em confronto entre si, muitos interpretam como consequência de uma escolha feita por quem decidiu viver sob as regras da criminalidade. É uma realidade trágica, mas esperada dentro de um contexto de disputas violentas.
O que causa revolta social é quando pessoas que não têm qualquer relação com o crime acabam mortas em meio a essa dinâmica de violência.
Foi exatamente isso que ocorreu em São Miguel. Em plena tarde de sábado, em uma rua onde funcionam o CRAS e um posto de saúde, uma moradora acabou atingida por disparos e morreu após ser socorrida. A cena de tiros, correria e medo demontrou algo que moradores de diversos bairros de Colatina já vêm denunciando há anos: a violência deixou de respeitar fronteiras e passou a invadir qualquer espaço da cidade.
Quando o crime circula livremente
Relatos de moradores indicam que indivíduos armados circulavam pela região efetuando disparos antes da chegada das viaturas policiais. A Polícia Militar mobilizou equipes para atender à ocorrência e realizar buscas na região.
Mas para quem vive nos bairros, a pergunta recorrente não é apenas sobre quem atirou, mas por que essas situações continuam acontecendo com tanta frequência.
Especialistas em segurança pública costumam apontar que a repressão policial, por si só, não resolve o problema da violência urbana. A prevenção — que envolve monitoramento, inteligência, ocupação territorial e políticas públicas integradas — é considerada um dos pilares fundamentais para reduzir a criminalidade.
Quando crimes graves acontecem em plena luz do dia, em áreas residenciais e próximas a equipamentos públicos, cresce a percepção entre moradores de que o Estado chega apenas depois que o pior já aconteceu.
O debate sobre prevenção
Colatina possui uma estrutura municipal voltada para ações de segurança e apoio à ordem pública, com setores responsáveis por políticas preventivas, monitoramento e apoio às forças estaduais. No entanto, situações como o ocorrido no bairro São Miguel acabam colocando em xeque a efetividade dessas estratégias.
A ausência de ações preventivas mais robustas, segundo especialistas em segurança urbana, pode criar um ambiente onde criminosos passam a agir com maior sensação de liberdade.
Em muitas cidades brasileiras, programas de monitoramento por câmeras, patrulhamento orientado por dados, presença comunitária e ações de inteligência territorial têm sido apontados como ferramentas importantes para reduzir crimes violentos.
Quando essas estratégias não são percebidas pela população, cresce o sentimento de que a segurança pública atua apenas de forma reativa — isto é, depois que o crime já aconteceu.
A revolta quando a vítima é um cidadão comum
Talvez o ponto mais sensível de casos como o ocorrido em São Miguel seja justamente a identidade da vítima.
A morte de uma moradora em via pública não é vista apenas como mais um caso criminal. Ela simboliza algo maior: a ruptura da sensação mínima de segurança que a população espera ter dentro do próprio bairro.
Para muitos moradores, a violência deixa de ser uma estatística e passa a ser um trauma coletivo.
Quando um cidadão comum perde a vida em meio a disparos nas ruas da cidade, a pergunta que ecoa entre famílias, comerciantes e trabalhadores é inevitável: se nem quem está apenas vivendo sua rotina está seguro, quem está?
A resposta para essa pergunta passa inevitavelmente por um debate mais amplo sobre prevenção, planejamento urbano, presença do Estado e políticas de segurança capazes de agir antes que o crime aconteça.
Porque quando a violência começa a atingir quem nunca fez parte dela, a tragédia deixa de ser apenas um problema policial — e se transforma em um sinal de alerta para toda a sociedade.















