Após dias de tensão, indígenas liberam Ferrovia Vitória-Minas, mas fazem alerta: “protesto pode voltar”

Bloqueio durou quase uma semana em Minas Gerais e foi suspenso após promessa de revisão nas indenizações do desastre de Mariana

Indígenas Tupinikim das aldeias de Aracruz desobstruíram a Ferrovia Vitória-Minas, em Resplendor, após a Vale sinalizar que irá reavaliar o modelo de indenizações destinado às comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015.

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A liberação dos trilhos ocorreu após seis dias de bloqueio em território mineiro e foi classificada pelas lideranças indígenas como um gesto de “boa-fé”, mas com um aviso claro: caso não haja avanços concretos nas negociações, os protestos podem ser retomados.

Reivindicação central: indenização individual

O principal ponto de tensão é o modelo de compensação adotado atualmente. Segundo os indígenas, os pagamentos foram realizados com base em grupos familiares, o que, na avaliação das comunidades, ignora direitos individuais — especialmente de mulheres e jovens.

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De acordo com o cacique Vilmar Tupã Atã, a revisão desse modelo é essencial para qualquer avanço nas tratativas.

“Tem famílias e pessoas que estão fora do processo. Esse é o primeiro ponto que precisa ser resolvido para iniciar qualquer diálogo”, afirmou.

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Além disso, os indígenas cobram:

  • pagamento retroativo
  • equiparação de valores entre territórios
  • inclusão de atingidos que ficaram fora do processo

Histórico de protestos e pressão

A mobilização não começou agora. Antes do bloqueio em Minas Gerais, os Tupinikim já mantinham um acampamento por mais de 120 dias em trecho da ferrovia em Aracruz, no Norte do Espírito Santo.

Nesse período, a ferrovia ficou interditada por cerca de 90 dias, em protesto contra a demora na reparação dos danos causados pelo desastre da Samarco, em parceria com a Vale e a BHP.

A transferência do bloqueio para Minas Gerais foi estratégica, já que os processos tramitam na Justiça Federal daquele estado.

Desconfiança marca nova rodada de negociação

Apesar da sinalização de diálogo por parte da Vale, o clima entre os indígenas é de cautela. As lideranças afirmam que promessas anteriores não foram cumpridas.

“A empresa já prometeu antes e não cumpriu. Já tentou nos desmobilizar outras vezes. Por isso, seguimos com o pé atrás”, destacou o cacique.

Mesmo com a liberação da ferrovia, os indígenas seguem mobilizados no local e devem decidir coletivamente os próximos passos após as reuniões com a empresa.

Impactos ainda sentidos após mais de 10 anos

Mais de uma década após o rompimento da barragem de Fundão — considerado um dos maiores desastres ambientais do país — os efeitos ainda são sentidos nas aldeias.

Segundo relatos das comunidades:

  • há contaminação do rio e do solo
  • a agricultura foi prejudicada
  • os peixes locais não são mais consumidos
  • há aumento de casos de doenças, incluindo câncer

Em nota, os Tupinikim reforçaram que a liberação da ferrovia não representa o fim da luta por reparação.

“Direito não se negocia, se garante”, afirmaram.

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