Vídeo expõe drama de quem precisa comprar medicamento de madrugada em Colatina
Condutor de aplicativo afirma que procurava medicamento para uma gestante que havia acabado de sair do hospital; situação volta a levantar questionamentos sobre atendimento farmacêutico durante a madrugada

Um vídeo que circula nas redes sociais voltou a colocar em discussão um assunto que há anos provoca debates em Colatina: o funcionamento das farmácias durante a madrugada.
As imagens foram gravadas por um motorista que trabalha com transporte por aplicativo. Segundo ele, por volta da meia-noite de domingo, transportava uma gestante que havia saído do hospital e precisava comprar medicamentos prescritos após o atendimento.
VEM AÍ… ES FALA ENTREVISTAS, com Cirilo de Tarso, no canal do ES FALA no YouTube.
Crédito Redes sociais
Ao passar pela Avenida Getúlio Vargas, no Centro de Colatina, onde estão concentradas algumas das principais redes e estabelecimentos farmacêuticos da cidade, o motorista afirma que não encontrou farmácia aberta para realizar a compra.
Diante da situação, ele decidiu gravar o vídeo e demonstrou indignação. A principal preocupação levantada pelo motorista é simples, mas relevante: o que acontece quando alguém precisa comprar um medicamento durante a madrugada?
O relato tem provocado manifestações e críticas de moradores nas redes sociais.
É importante ressaltar que o vídeo registra a experiência do motorista naquele percurso e horário. Ele não permite concluir, sozinho, que nenhuma farmácia de todo o município estivesse prestando atendimento naquele momento. A situação, entretanto, reacende uma discussão antiga e diretamente relacionada ao acesso da população a medicamentos fora do horário comercial.
O assunto já provocou grande debate em Colatina
A discussão está longe de ser nova.
Em 2013, Colatina aprovou a Lei Municipal nº 5.954, que criou regras específicas para o funcionamento das farmácias e drogarias. O modelo estabelecia um sistema de rodízio de plantões 24 horas para garantir atendimento ininterrupto à população.
A legislação determinava que fossem garantidos ao menos três estabelecimentos entre 20h e 8h, sendo dois na região central e um na Avenida Sílvio Avidos, em São Silvano. Entre os estabelecimentos do Centro, pelo menos um deveria estar localizado na Avenida Getúlio Vargas, Praça Municipal ou Praça da Catedral.
O sistema funcionava de maneira diferente do conceito tradicional de uma farmácia permanentemente aberta: depois das 22h, os estabelecimentos escalados poderiam permanecer com as portas fechadas, mas deveriam garantir atendimento ao público durante toda a madrugada. A lei também determinava a divulgação visível da escala de plantão nas fachadas das farmácias.
ES FALA acompanhou a discussão em 2019
O tema ganhou grande repercussão política em 2019. Naquele período, estava em discussão na Câmara Municipal uma proposta encaminhada durante a administração do então prefeito Sérgio Meneguelli, que permitiria às farmácias interessadas funcionar 24 horas, mantendo-se também o rodízio destinado a assegurar atendimento à população.
A votação chegou a ser adiada após vereadores pedirem mais tempo para analisar a proposta e defenderem uma discussão maior com a sociedade.
Em agosto daquele ano, o ES FALA voltou ao assunto ao mostrar que os vereadores aguardavam os desdobramentos da então Medida Provisória da Liberdade Econômica antes de decidir sobre o projeto municipal. A discussão sobre o funcionamento 24 horas já se arrastava havia anos.
Houve até disputa judicial. Em 2019, três farmácias que haviam conseguido autorização judicial para funcionar 24 horas tiveram a situação alterada após decisão do Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, voltou a prevalecer o modelo estabelecido pela legislação municipal.
Mas a lei do antigo rodízio foi revogada
Há um ponto fundamental para entender a situação atual.
A Lei nº 5.954/2013, que estabelecia o rodízio obrigatório e as regras de plantão das farmácias, não está mais em vigor. O portal oficial de legislação de Colatina informa que ela foi revogada pela Lei nº 6.954, de 22 de abril de 2022.
Isso muda significativamente o contexto daquela antiga discussão.
O problema levantado pelo vídeo, portanto, merece uma resposta atual: depois da revogação do antigo sistema obrigatório, como está garantido hoje o acesso da população a medicamentos durante a madrugada em Colatina?
É justamente essa pergunta que ganha força diante do relato do motorista.
E quem sai do hospital durante a madrugada?
A situação narrada no vídeo toca em um ponto especialmente sensível. Hospitais e serviços de urgência funcionam durante a noite e pacientes podem receber alta ou deixar uma unidade com prescrição para iniciar imediatamente um tratamento.
Gestantes, crianças, idosos e pacientes atendidos em situações de urgência estão entre as pessoas que eventualmente podem precisar encontrar medicamentos fora do horário convencional.
Por isso, a discussão vai além da conveniência comercial de uma farmácia permanecer aberta ou fechada. Existe também uma questão de acesso ao medicamento e continuidade do atendimento de saúde.
O episódio registrado no fim de semana recoloca diante de Colatina uma discussão que atravessou Câmara Municipal, Prefeitura, comerciantes, Judiciário e população durante anos.
Agora, anos depois e com a antiga legislação de plantões revogada, a pergunta feita indiretamente pelo motorista volta ao centro do debate:
se um morador precisar comprar um medicamento de madrugada em Colatina, onde deve procurar atendimento?




