Projeto de R$ 7,4 bilhões em Baixo Guandu levanta preocupação sobre uso da água do Rio Doce
Ambientalistas cobram estudos sobre a quantidade de água necessária para resfriar servidores de inteligência artificial. Empreendimento prevê estrutura tecnológica e industrial próxima à Usina de Mascarenhas.

A perspectiva de instalação de um complexo tecnológico e industrial avaliado em R$ 7,4 bilhões em Baixo Guandu, está provocando questionamentos sobre os impactos que o empreendimento poderá causar aos recursos naturais da região. No centro da discussão está a utilização da água do Rio Doce para o funcionamento de um data center destinado ao processamento e armazenamento de grandes volumes de informações, especialmente relacionadas à inteligência artificial (IA).
O empreendimento, denominado Projeto Rubi, é apresentado como uma oportunidade de desenvolvimento econômico para o município. Entretanto, ambientalistas defendem que os benefícios anunciados sejam acompanhados de estudos capazes de demonstrar a viabilidade ambiental da estrutura, principalmente em relação à disponibilidade de água.
O alerta parte do Observatório Capixaba da Água e do Meio Ambiente. O coordenador da entidade, Merci Fardin, considera indispensável avaliar não apenas o investimento financeiro e a expectativa de geração de empregos, mas também os efeitos que a instalação de grandes estruturas industriais poderá provocar sobre o Rio Doce e as atividades econômicas que dependem de suas águas.
Água do Rio Doce será fundamental para o empreendimento
A localização de Baixo Guandu, às margens do Rio Doce e nas proximidades da Usina Hidrelétrica de Mascarenhas, aparece entre os fatores estratégicos para a implantação do projeto.
O prefeito Lastênio Cardoso (MDB) confirmou, em declarações divulgadas pelo Século Diário, que a água necessária ao funcionamento do empreendimento deverá ser obtida de uma represa no Rio Doce.
A informação coloca em evidência uma das principais preocupações dos ambientalistas: qual será o volume de água efetivamente necessário para manter em funcionamento uma estrutura tecnológica dessa dimensão?
O empresário Mário Rodrigues, integrante do grupo de investidores da Line Solution, empresa paulista ligada ao Projeto Rubi, afirmou que o sistema de refrigeração deverá operar em circuito fechado, permitindo a recirculação da água.
Segundo a explicação apresentada pelo empresário, a perda mensal por evaporação na estrutura inicial de 100 megawatts (MW) seria equivalente ao consumo de três residências populares com quatro moradores cada.
A estimativa, entretanto, não esclarece todos os aspectos da utilização dos recursos hídricos.
Ambientalistas querem saber quanto de água será realmente utilizado
Para especialistas e representantes de entidades ambientais, a informação sobre a perda por evaporação precisa ser acompanhada de estudos técnicos que demonstrem a demanda hídrica completa do empreendimento.
Entre os dados considerados necessários estão os volumes previstos de captação, armazenamento, circulação, reposição e eventual descarte de água.
Outra questão envolve a expansão futura do complexo. É necessário esclarecer se a estimativa apresentada pelos investidores corresponde exclusivamente à primeira etapa de 100 MW ou se também considera as ampliações previstas.
Merci Fardin chama atenção para a necessidade de avaliar os impactos acumulados dos diferentes empreendimentos planejados para a região.
A preocupação é que a análise isolada de cada projeto deixe de considerar a soma das demandas sobre o Rio Doce, especialmente em períodos de menor disponibilidade hídrica.
O coordenador do observatório também defende que sejam consideradas as necessidades da agricultura familiar, do abastecimento humano e das atividades econômicas já existentes no município.
Baixo Guandu produz cerca de 5,3 milhões de litros de água por dia
Os números do abastecimento público ajudam a dimensionar a importância da discussão.
Em publicação da Prefeitura de Baixo Guandu, de 2022, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) informou que o sistema municipal tratava aproximadamente 120 litros de água por segundo e atendia mais de 10 mil residências.
Caso essa vazão fosse mantida continuamente durante 24 horas, corresponderia a aproximadamente 10,36 milhões de litros por dia. Trata-se, porém, de um cálculo teórico, que não representa necessariamente a produção efetiva do sistema.
Dados referentes a 2024, disponibilizados pelo Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) e compilados pelo Instituto Água e Saneamento, apontam uma produção anual de aproximadamente 1,941 milhão de metros cúbicos de água em Baixo Guandu.
O volume equivale a uma média de aproximadamente 5,32 milhões de litros por dia.
O mesmo levantamento registra consumo médio de 211,6 litros por habitante ao dia e índice de perdas na distribuição de 45,3%.
Esses indicadores revelam desafios no sistema de abastecimento e reforçam a importância de conhecer a disponibilidade hídrica antes da implantação de novos empreendimentos de grande porte.
Os números do abastecimento municipal, entretanto, não permitem calcular diretamente o impacto do Projeto Rubi, já que ainda são necessários dados específicos sobre a captação e o consumo de água previstos para o complexo.
Investimento bilionário exige transparência ambiental
A discussão sobre o empreendimento vai além de Baixo Guandu e alcança outros municípios da região do Rio Doce, que dependem da bacia hidrográfica para o abastecimento, a agricultura e diferentes atividades econômicas.
O rio também carrega as consequências do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, ocorrido em novembro de 2015, desastre que provocou impactos ambientais e sociais ao longo de sua extensão.
Diante desse histórico, ambientalistas defendem que novos projetos industriais sejam acompanhados de avaliações rigorosas sobre seus possíveis efeitos na qualidade e na disponibilidade da água.
A instalação de um empreendimento de R$ 7,4 bilhões representa uma perspectiva econômica relevante para Baixo Guandu. Entretanto, a dimensão financeira do investimento não elimina a necessidade de esclarecer como serão utilizados os recursos naturais.
Entre as questões que precisam de respostas estão a quantidade de água a ser captada, a demanda prevista para futuras ampliações, os efeitos em períodos de estiagem e as garantias de preservação do abastecimento da população.
O debate não precisa colocar desenvolvimento econômico e proteção ambiental em lados opostos. A questão central é assegurar que a implantação de um complexo dessa dimensão ocorra com transparência, planejamento e respeito às necessidades da região.
Antes que o Projeto Rubi avance, a população precisa conhecer não apenas o valor do investimento, mas também os números que demonstrarão quanto de água do Rio Doce será necessário para sustentá-lo.
O Portal ES FALA mantém espaço aberto para que os responsáveis pelo Projeto Rubi, a Prefeitura de Baixo Guandu e os demais envolvidos apresentem esclarecimentos sobre as demandas hídricas, os estudos ambientais e as medidas previstas para garantir a proteção dos recursos naturais.



