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Vício em jogos afasta cada vez mais trabalhadores no Espírito Santo; número de benefícios cresce 57%

Dados da Previdência Social revelam avanço dos afastamentos por dependência de jogos e apostas. Levantamento também aponta movimentação de quase R$ 400 milhões em apostas em apenas um mês no Estado.

Por Luciana Silvestre
· 4 min de leitura · Sem comentários
Vício em jogos afasta cada vez mais trabalhadores no Espírito Santo; número de benefícios cresce 57%

O que começa como uma tentativa de ganhar dinheiro pode se transformar em um problema capaz de comprometer a saúde, as finanças e até a capacidade de trabalhar. No Espírito Santo, o avanço dos afastamentos profissionais relacionados à dependência de jogos chama a atenção para uma questão que ultrapassa o prejuízo financeiro e chega ao sistema previdenciário.

Entre janeiro e agosto de 2026, 11 trabalhadores capixabas receberam benefícios por incapacidade temporária associados ao jogo patológico, conforme dados do Ministério da Previdência Social. O número já supera em 57,1% o total de sete benefícios concedidos durante todo o ano de 2025.

A comparação com 2024 é ainda mais expressiva. Naquele ano, apenas um benefício havia sido contabilizado no Estado.

Embora os números absolutos ainda sejam pequenos, a evolução mostra que os problemas relacionados ao comportamento compulsivo de jogar passaram a aparecer com maior frequência entre os afastamentos reconhecidos pela Previdência.

Quase R$ 400 milhões em apostas em apenas um mês

Outro levantamento ajuda a dimensionar a presença dos jogos e apostas no cotidiano dos capixabas.

Uma pesquisa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES) identificou 7,3 milhões de apostas realizadas em junho de 2026, movimentando R$ 397,7 milhões.

O volume havia sido ainda maior em outubro de 2025, quando foram contabilizados 9,3 milhões de jogos, com movimentação superior a R$ 518 milhões.

Os valores mostram a dimensão financeira das apostas no Estado, mas não significam que todo esse dinheiro corresponda a perdas dos jogadores.

Também não é possível determinar, com base nesses dados, quantas pessoas desenvolveram dependência ou tiveram prejuízos pessoais em decorrência das apostas.

Trabalhadores de 30 a 39 anos aparecem com maior frequência

No Brasil, os afastamentos relacionados ao jogo patológico também cresceram.

Benefícios concedidos no Brasil

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Fonte: Ministério da Previdência Social. Dados de 2026 até agosto.

O perfil dos trabalhadores com vínculos formais ativos que receberam esses benefícios entre 2023 e 2025 revela uma concentração entre homens e pessoas em idade produtiva.

Os homens representaram 71% dos casos analisados, enquanto as mulheres corresponderam a 29%.

A faixa etária de 30 a 39 anos concentrou 44,1% dos registros. Em seguida aparecem os trabalhadores de 40 a 49 anos, com 22,8%, e os de 25 a 29 anos, com 17,1%.

Na distribuição por atividade econômica, o setor de serviços respondeu por 54% dos casos, seguido pela indústria, com 23%, e pelo comércio, com 20%.

Quando o jogo deixa de ser diversão e compromete a saúde

O chamado jogo patológico é caracterizado por um comportamento persistente e compulsivo relacionado às apostas e aos jogos, mesmo diante de consequências negativas.

A condição pode envolver diferentes modalidades, incluindo jogos eletrônicos e apostas pela internet.

Para que o trabalhador tenha direito ao benefício previdenciário, não basta apresentar dificuldades financeiras ou relatar perdas com apostas. É necessário que a incapacidade temporária para o trabalho seja reconhecida conforme os critérios do INSS.

A subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho, Paula Montagner, manifestou preocupação com os efeitos da dependência, especialmente quando acompanhada de endividamento.

A preocupação também alcança a rede pública de saúde.

Entre janeiro e julho de 2026, o Sistema Único de Saúde contabilizou 564 atendimentos relacionados a problemas com jogos, envolvendo 247 pessoas assistidas no país.

Desse total, 72,9% eram homens, e 38% tinham entre 25 e 34 anos.

Situação também merece atenção em Colatina e Linhares

O crescimento dos afastamentos no Espírito Santo traz uma discussão importante para municípios como Colatina, Linhares, São Gabriel da Palha e outras cidades do Norte e Noroeste capixaba.

A facilidade de acesso às plataformas digitais tornou os jogos e apostas uma atividade que pode ser realizada pelo celular, sem necessidade de deslocamento.

Entretanto, os dados apresentados não permitem identificar quantos moradores dessas cidades receberam benefícios por incapacidade relacionados ao jogo patológico.

Também é importante diferenciar o número de afastamentos do total de pessoas que enfrentam dependência. Os benefícios previdenciários representam apenas situações em que houve reconhecimento de incapacidade para o trabalho.

O crescimento observado não comprova, isoladamente, que as plataformas de apostas sejam responsáveis por todos os casos contabilizados, mas reforça a importância de acompanhar os impactos dos jogos sobre a saúde e a vida profissional.

Bets foram proibidas no Brasil em setembro

O crescimento dos afastamentos ocorreu antes da medida provisória publicada pelo governo federal em 25 de setembro de 2026, que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das chamadas bets em todo o território nacional.

Pelo cronograma oficial, as plataformas autorizadas deveriam encerrar suas operações até 6 de outubro. A proibição não alcança as demais modalidades lotéricas permitidas pela legislação.

A medida representa uma mudança importante no mercado de apostas, mas seus possíveis efeitos sobre a quantidade de trabalhadores afastados ainda dependerão de novos levantamentos.

Para quem enfrenta problemas relacionados à dependência de jogos, o Ministério da Saúde orienta buscar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

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